POEMA DE INGENUIDADES
Tarcísio R. Costa

Lá no interior onde nasci,
Tive uma infância
De alegrias e ingenuidade...
Brincava pelos caminhos
Que nos levava ao rio,
E outras paragens,
Como o pomar,
Onde, comia frutas no pé
E contemplava as flores
Beijadas pelas borboletas,
Confundiam-se as suas matizes multicores...
As vezes, pensava que só tinham ali borboletas;
Noutras vezes, pensava que ali só tinham flores...

Hoje, quando recordo a minha infância,
O que me dá mais saudade
É a brisa que, com ternura,
me acariciava,
Principalmente, ao anoitecer...

Minha mãe, tão pequenina,
Os seus olhos expressavam
Só amor para mim!

Como era bom viver assim...

O tempo que tudo constrói,
Também, tudo destrói...

Depois palmilhei
Caminhos com desníveis,
Seixos e espinhos...

Mas, nunca perdi a esperança
De que superaria os obstáculos,
Porque sempre acreditei
Nas orações de minha mãe!


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SAUDADE DE MIM, CRIANÇA!
Bernardino Matos.

Hoje, eu amanheci com uma forte saudade,
de minha infância, do meu tempo de criança,
e embora enfrentasse muita dificuldade,
meu coração batia no ritmo da esperança.

Em Iguatu, na Rua do Fogo, jogava futebol,
o espaço do goleiro era por duas pedras marcado,
todos descalços, não importava a chuva ou o sol,
a energia era desligada cedo, eu me sentia isolado.

A tática era simples, uns na defesa, outros no ataque,
o objetivo era o gol, o difícil era o chute por cima,
a altura da trave era definida pelo tamanho do craque,
a bola não batia no travessão, nem na estima.

Eu corria atrás da bola, suava, caia, me feria, brigava,
mas tudo era inconseqüente, até mesmo a miséria,
a gente não discutia cor ou posição social, só jogava,
em nossa cartilha, viver feliz, era a primeira matéria.

Quando entrava na catinga, naquele sertão central,
para caçar passarinho, desviando dos espinhos,
do mandacaru, do xiquexique, levando no bornal,
uma baladeira, pedras de rio, não existiam caminhos.

Tal como na vida, tínhamos que estabelecer o rumo,
era triste matar uma juriti , um cardeal, uma rolinha,
mas servia de alimento, torradinhas, nosso consumo,
era divino ouvir o canto dos pássaros, que ladainha!

A gente tomava banho nos açudes, nas lagoas, no rio,
era o nosso mundo, poucos liam jornais e revistas,
tudo vinha de Fortaleza, de trem, era um desafio,
ler aquelas notícias, sobretudo a vida de artistas.

Quando o vento era favorável, o céu azul, distante,
a gente empinava pipa, cada um fazia e coloria a sua,
com o que podia, dependendo do tamanho do barbante,
ela voava serena, subia alto, levava nossa esperança nua.

Eram momentos alegres, ternos, nos fazia esquecer,
a pobreza, a carência de afeto, a fome, até a doença,
não se questionava nada, nosso segredo era viver,
não existiam planos, nem roteiro, Deus dava licença.

Nas festas de aniversário, adorava espocar balões,
aquele bolo de milho, de macaxeira, um copo de aluá,
tudo era simples, não tínhamos grandes aspirações,
não havia disputas, nada para dividir, somente amar.

Na escola a gente se divertia, aprendia a enxergar,
nossas limitações, as diferenças sociais, nossa vida,
com a leitura nossa mente tinha no que sonhar,
eu cresci assim, não ligava pro tamanho da ferida.

Hoje, depois de longas caminhadas e de travessias,
eu retorno aos mesmos lugares, a paisagem mudou,
mas o desconforto continua, a mesma solidão fria,
as incertezas, as agruras, a fome, tudo isso ficou.

Nada me impede, porém, de ser criança outra vez,
de querer correr livre, de deixar a vida me levar,
sem rumo definido, caminhando com plena lucidez,
hoje, quero tão somente, assumir meu direito de amar.

Em meio ao turbilhão dessa vida moderna,
a imagem de minha mãe, sentada na rede,
de terço em punho, rezava, pedia por nós, era terna,
de tanto rezar, o terço de desgastou,
sua fé é minha parede.

Eu trouxe para ela, de Roma um terço, bento pelo Papa,
a oração era a mesma, mas a fé redobrou,ele tocava Deus,
hoje não jogo mais na rua do fogo, mas conservei a capa,
aquele couraça de esperança, minha mãe zela pelos seus.

Assim sendo um brinde à vida, à esperança, à fé,
ao amor,à amizade sincera, à paz, à juventude,
à velhice aceita, às mudanças sociais, todos de pé,
sorvamos numa mesma taça, o carinho,a quietude.


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